Acho que ninguém gosta de ficar entediado. Essa não é uma queixa moderna. As pessoas sempre buscaram uma distração, companhia, uma ocupação. Mas há uma diferença entre aliviar o tédio ocasionalmente e decidir, como cultura, que o tédio em si é patológico, ou seja, uma falha estrutural a ser eliminada.
Foi isso que aconteceu conosco. Silenciosamente, gradualmente e com as melhores intenções, conseguimos construir um mundo onde cada momento é repleto de ação, onde nenhum momento precisa ser vazio. E, ao fazermos isso, conseguimos remover algo que não entendíamos completamente que estávamos removendo.
A pessoa comum (eu) hoje em dia checa o celular minutos, às vezes segundos, após sentir o primeiro sinal de tédio. Não porque espere algo importante. Mas porque a sensação de não ter nada imediato para fazer se tornou, de alguma forma, um tanto desconfortável. De certa forma, quase ansiogênica.
Isso não é algo trivial. Não se trata meramente de devaneios ou pensamentos ociosos. Trata-se de um tipo particular de eu, aquele que só emerge nas lacunas entre as coisas. A pessoa que sabia, por experiência própria, o que realmente queria: não o que o feed sugeria, não o que o algoritmo sugeria, mas o que surgia de dentro, quando não havia mais nada para preencher o vazio.
O tédio, descobrimos, era uma forma de autoconhecimento. Nós o otimizamos até que ele deixasse de existir.