
Não sei o que acontece depois que alguém morre por suicídio.
Não sei se existe um paraíso.
Não sei se existe um inferno.
Não sei o que deus faz com uma pessoa que passou anos tentando sobreviver e acabou não conseguindo.
Não sei o que acontece com o último pensamento, o último suspiro, o último momento terrível que fez alguém acreditar que não havia outra saída.
Mas às vezes penso na maneira como as pessoas falam sobre o inferno.
Com tanta facilidade, como se fosse uma equação simples.
Você fez isso.
Você pecou.
Você sabia que não devia.
Você deve. Você deveria.
Deveria ter sido mais forte.
Deveria ter pensado na sua família.
Deveria ter esperado.
Deveria ter pedido ajuda.
E então, de alguma forma, o céu fecha as portas.
Não sei.
Acho difícil acreditar que um deus que sabe tudo sobre uma pessoa olharia para o pior momento da vida dela e concluiria que a pior coisa que ela já fez foi não ter sobrevivido.
Talvez isso seja sentimentalismo demais. Talvez seja teologia ruim vinda deste ateu inculto e incauto.
Talvez alguém me diga que estou errado, mas não consigo parar de pensar neles.
Aquelas pessoas que tentaram. As pessoas que continuavam respondendo mensagens mesmo desmoronando. As pessoas que iam trabalhar, iam à escola, jantavam com suas famílias, riam de piadas, postavam fotos, diziam ” Estou bem” porque, às vezes, dizer qualquer outra coisa parecia impossível.
As pessoas que estavam vivas em público e se afogando em privado.
Não quero imaginar um deus que castiga as pessoas por perderem uma guerra que ninguém mais pôde ver.
Somos tão rápidos em chamar isso de escolha, como se toda pessoa à beira da própria vida tivesse a mesma liberdade de pensamento que nós temos quando falamos sobre isso de uma distância segura.
Como se o desespero não fosse capaz de estreitar o mundo.
Como se a dor não distorcesse.
Como se não existissem doenças, circunstâncias, perdas, abusos, solidão, pobreza, luto, vergonha, medo e exaustão que possam, aos poucos, convencer uma pessoa de que o amanhã não é uma extensão do hoje, mas apenas mais um cômodo onde ela precisa sobreviver.
Não acho que as pessoas que morrem por suicídio necessariamente desejassem a morte. Às vezes, penso que elas apenas queriam que o sofrimento acabasse.
E essas duas coisas não são a mesma. Essa distinção é importante para mim.
Porque já ouvi pessoas dizerem: “Por que eles simplesmente não pediram ajuda?”
Eu entendo a pergunta, mas também penso em como é difícil pedir ajuda quando seu cérebro já o convenceu de que você é um fardo.
Como dizer ” por favor, me salve” depois de meses acreditando que todos estariam melhor sem você?
Como bater na porta de alguém e explicar que você tem medo de si mesmo?
Como admitir que os pensamentos que você vem escondendo estão ficando mais altos?
Como dizer a alguém que você não confia mais na sua própria mente?
Alguns imaginam o momento anterior ao suicídio como uma pessoa decidindo calmamente entre a vida e a morte.
Imagino alguém exausto e confuso. Alguém que carregou algo por tanto tempo que seus braços se esqueceram da sensação de estarem vazios.
E eu sei que a imaginação é incompleta. Sei que não posso saber o que se passava na mente de outra pessoa em seus últimos momentos. Talvez ninguém possa, e é por isso que não quero julgá-la.
Há algo profundamente cruel em exigir uma decisão perfeita de alguém que já está sofrendo de forma imperfeita.
Pedimos às pessoas que sejam racionais enquanto estão sofrendo. Pedimos que pensem no amanhã, quando o amanhã é justamente o que mais as aterroriza.
Pedimos que se lembrem de que são amadas, quando suas próprias mentes lhes dizem o contrário.
Pedimos que lutem e, quando não conseguem, às vezes as chamamos de egoístas.
Eu detesto essa palavra.
Principalmente quando se fala de alguém que já não está aqui para se defender.
Imagine sentir tanta dor que a morte começa a parecer silêncio, e então ser chamado de egoísta por querer que o barulho pare.
Talvez o suicídio deixe muitas perguntas sem resposta.
A família pergunta o que perdeu.
O amigo pergunta por que não ligaram.
A mãe se lembra da última conversa.
O irmão se lembra da última piada.
Alguém fica olhando para uma mensagem antiga, pensando se havia algum aviso oculto nela. Alguém pensa: ” Eu deveria ter sabido”. Outra pessoa pensa: ” Eu deveria ter feito mais”.
Alguém carrega uma culpa que não lhe pertence inteiramente, porque o luto é muito bom em fazer as pessoas reescreverem o passado.
Mas, às vezes, não havia nada que alguém pudesse fazer.
Às vezes, as pessoas fazem tudo o que sabem e mesmo assim alguém morre.
Às vezes, o amor não basta, e acho que essa é uma das coisas mais difíceis de aceitar.
Porque se o amor não bastasse, o que bastaria então?
Queremos que tenha havido uma chamada telefônica perdida.
Uma conversa que poderia ter mudado tudo.
Uma porta que alguém deveria ter aberto.
Uma frase que alguém deveria ter dito.
Queremos acreditar que houve um único momento em que a história poderia ter sido corrigida.
Talvez às vezes sim.
Talvez às vezes não houvesse.
Não sei.
Eu só sei que não quero que o capítulo final da vida de alguém apague tudo o que veio antes.
Uma pessoa não se resume à sua morte.
Ela ainda era a pessoa favorita de alguém.
Ela ainda teve infância.
Ela ainda riu até a barriga doer.
Ela ainda tinha músicas que amava.
Comidas que desejava.
Lugares que queria conhecer.
Pessoas que queria impressionar.
Coisas em que era boa.
Coisas em que era péssima.
Ela ainda era a pessoa que se empolgava com alguma bobagem.
Ainda era a pessoa que ficava acordada até tarde.
Ainda era a pessoa que fazia alguém rir.
Ainda era filha de alguém.
Ainda era amiga de alguém.
Ainda era um ser humano completo.
Mesmo no fim.
E se realmente existe um deus esperando do outro lado da morte, espero que Ele entenda tudo isso.
Espero que Ele saiba a diferença entre alguém que queria deixar de existir e alguém que desesperadamente queria parar de sofrer.
Espero que Ele saiba quanta coragem foi necessária para chegar tão longe.
Espero que Ele saiba das manhãs difíceis que eles sobreviveram e que ninguém sabia que existiam.
Espero que Ele saiba de todas as vezes em que eles quase desistiram e não desistiram. Espero que Ele conte essas também.
E se as pessoas que morrem por suicídio realmente vão para o inferno, então tenho uma pequena e estranha oração. Espero que haja um canto tranquilo lá.
Espero que haja um lugar onde o fogo queime suavemente, o suficiente para mantê-las aquecidas. Espero que ninguém lhes pergunte por que fizeram isso.
Espero que ninguém lhes diga que deveriam ter se esforçado mais.
Espero que não haja sermões, nem acusações, nem rostos de decepção, ninguém os obrigando a explicar algo que não conseguiam explicar enquanto estavam vivos.
Espero que alguém diga: ” Você estava cansado(a)”. Eu sei. Você não precisa mais dar explicações.
Porque temos o péssimo hábito de transformar os piores momentos das pessoas em lições de moral.
Dizemos para escolher a vida como se todos tivessem recebido a mesma força.
Dizemos que a vida é uma dádiva como se as dádivas não pudessem se tornar insuportavelmente pesadas.
Dizemos deus nunca te dá mais do que você pode suportar, embora eu tenha visto pessoas receberem mais do que qualquer pessoa deveria carregar.
Não quero romantizar o suicídio.
Não há nada de romântico nas pessoas que ficam para trás.
Não há nada de poético em uma mãe esperando o filho voltar para casa.
Não há nada de belo em uma cadeira vazia.
Não há nada de significativo em alguém ter que identificar a pessoa que ama. Não há nada de pacífico em uma família aprendendo a dizer o nome de alguém no passado.
A morte continua sendo a morte. Ela continua levando embora. Ela continua deixando cicatrizes.
E eu gostaria que cada pessoa que está sofrendo pudesse ficar tempo suficiente para descobrir que o mundo pode mudar. Que a dor de hoje pode não ser a dor para sempre. Que às vezes a menor interrupção pode manter alguém aqui tempo suficiente para que algo mais aconteça.
Talvez não saber como será o amanhã já seja suficiente. Talvez esperar mais uma noite já seja suficiente. Talvez sobreviver nem sempre signifique ter esperança. Talvez às vezes signifique adiar o fim.
E se você está lendo isso enquanto se encontra em algum lugar próximo a essa beira, não tenho uma frase bonita que possa consertar sua vida.
Não vou dizer que tudo acontece por uma razão.
Não vou dizer que você só precisa pensar positivo.
Não vou dizer que outras pessoas estão em situações piores.
Não vou dizer que você deve a felicidade ao mundo.
Talvez eu arriscasse bulbucionar…. por favor, não tome uma decisão definitiva no pior lugar em que você já esteve.
Você não precisa explicar toda a sua vida para merecer ajuda. Você não precisa provar que sua dor é grave o suficiente.
E para todos os outros, talvez possamos parar de perguntar por que eles não se salvaram. Talvez possamos começar a perguntar por que construímos um mundo onde tantas pessoas achavam que precisavam se salvar.
Não sei para onde as pessoas vão depois da morte.
Não sei o que os espera.
Mas espero que, onde quer que estejam, estejam finalmente livres da voz que lhes dizia que eram um fardo.
E espero que, pela primeira vez em muito tempo, elas não sintam medo.